Amazônia: Rejeitos industriais e domésticos contaminam águas dos principais rios da região


Laboratório analisa rios da Amazônia – Água para beber, navegar e ter momentos de lazer é o que não falta na Amazônia. A região tem o maior recurso hídrico do Brasil – banhada pelas bacias Amazônica e Araguaia-Tocantins, que totaliza 55,29% das águas que banham o País, o maior rio do mundo em volume de água (o Rio Amazonas, com uma vazão de 190 mil metros cúbicos por segundo) e concentra 73% da água doce do Brasil.

Mas, quantidade nem sempre é qualidade. Paradoxalmente, está na Amazônia o Estado brasileiro com o 4º pior atendimento por rede de abastecimento de água e de esgoto sanitário, o Pará. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2000, mais da metade da população paraense não recebe água tratada em casa e mais de 97% destinam indevidamente seus rejeitos, que acabam sendo despejados diretamente nos rios. Soma-se a esse problema a contaminação das águas causada por rejeitos industriais. O resultado é um ciclo vicioso em que homem e natureza se destroem mutuamente.

Nesse contexto, desde 1988, o Laboratório de Química Analítica e Ambiental (Laquanam), da Universidade Federal do Pará, tem se dedicado a realizar análises químicas sobre a qualidade das águas amazônicas. O objetivo é detectar possíveis contaminações e, a partir dos resultados, oferecer aos órgãos públicos ambientais subsídios para a resolução de tais problemas.

Nos mais de vinte anos do Laquanam, sob a coordenação da professora Simone Pereira, da Faculdade de Química da UFPA, foi possível analisar rios importantes da região, entre eles, os Rios Solimões, Amazonas, Xingu, Tapajós, Tocantins, Pará, Barcarena, São Joaquim, Guamá, Dendê, Conde, Curuperê e Murucupi e a Baía do Guajará.

As pesquisas trouxeram dados alarmantes. Além da contaminação causada por micro-organismos, decorrente do lançamento indiscriminado de esgotos, observou-se a grande presença de metais pesados na composição da água dos rios, em quantidades acima do permitido pela Resolução 357/05, do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). O cádmio (metal que, se ingerido, pode causar câncer), por exemplo, foi encontrado em altas quantidades no Rio Pará, em 2002 (3,86 microgramas por litro), no Rio Dendê, também em 2002 (8,50), e no Rio Murucupi, em 2009 (3,37), sendo que o máximo permitido pelo Conama é de um micrograma por litro.

A presença de elementos tóxicos nas águas da região afeta a vida nos rios, causando problemas na cadeia alimentar (peixes contaminados – homens contaminados) e, em longo prazo, pode provocar mutações genéticas nos animais aquáticos.
Contaminação: causas naturais e antrópicas

As causas do excesso de alguns metais nos rios da Amazônia são diversas. “Certos metais fazem parte da geoquímica da nossa região, como o ferro, o alumínio e o manganês. Por isso, dependendo do local, a contaminação dos rios, por esses elementos, pode ter causas naturais, antrópicas ou ambas”, explica a professora Simone Pereira.

No caso de locais onde a exploração mineral e as indústrias funcionam em grande escala, como em Barcarena, o problema natural é agravado pela falta de tratamento dos rejeitos da produção industrial, os quais acabam chegando aos rios. Mas não é só o efluente industrial que polui as águas. Os rejeitos domésticos também são levados diretamente aos rios pelo precário sistema de esgoto das cidades.

“É preciso maior conscientização da sociedade. A água dos rios será a água que vamos receber na nossa torneira. Se ela estiver contaminada, causará problemas de saúde”, alerta a pesquisadora. De fato, segundo dados de 2008, da Organização Mundial de Saúde, 28 mil pessoas morrem por ano, no Brasil, por causa de doenças como Cólera, Hepatite A e Febre Tifoide, provocadas por água contaminada e más condições sanitárias.

Para garantir a qualidade de nossos recursos hídricos, são necessários esforços, sobretudo, políticos. A começar pelo saneamento básico das cidades amazônicas, proporcionando um fluxo que tanto forneça água limpa à população quanto destine, devidamente, os rejeitos dos esgotos, para que não desemboquem nos rios.

O segundo ponto crucial da questão é a maior rigidez na aplicação das leis ambientais. “Nós já temos bastantes leis ambientais. Falta, agora, tornar mais eficiente a sua aplicação e fiscalização”, acredita a professora Simone Pereira. Para ela, é fundamental haver maior integração dos órgãos reguladores, como Secretaria Estadual do Meio Ambiente, Ministério Público, Vigilância Sanitária, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) e Delegacia do Meio Ambiente.

E mais: é preciso investir em pesquisas: “Os resultados que obtemos com as nossas pesquisas no Laboratório de Química Analítica e Ambiental são enviados para os órgãos ambientais para respaldarem processos e minimizarem os danos causados pela contaminação. Mas ainda faltam investimentos para os laboratórios que realizam as análises”, chama a atenção.

Reportagem de Suzana Lopes e foto de Wagner Meier, no Beira do Rio, Jornal da Universidade Federal do Pará, Ano VI Nº 79, publicada pelo EcoDebate, 16/01/2010
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